A vida é implacável
#34 a morte, também
Estou com saudade de mim. Olhei a última publicação e já faz mais de um mês. Desconfio que nesse ínterim eu me abandonei. Os sinais são os mesmos: paro de ler, de escrever, de cantar enquanto dirijo ou arrumo a casa.
Como matar a saudade? Marcando um encontro e comparecendo, certo? Dito isso, cá estou: num encontro comigo por meio das palavras.
Há algumas semanas li no perfil de uma psiquiatra que gosto (ou não, porque não me lembro se quer o seu nome) a seguinte frase: “a vida é implacável”. Desde então, durmo e acordo mastigando essas palavras difícies de serem digeridas.
De fato, a vida é implacável. Um diagnóstico que esfrega a nossa incapacidade de controlar qualquer fatia de vida; A incerteza diante da decisão tomada; A angústia que não mente e escancara o vazio.
Todavia, a morte também é. A criança que se foi de forma repentina enquanto estudava; A figura masculina que ocupou por um tempo a centralidade do pai-ausente na construção simbólica que deu adeus a vida.
E o que fica no meio desses dois polos?
Por aqui, o sorriso de uma criança que me permite observar as formigas e dar chá para o jacaré de plástico sem olhar os ponteiros do relógio; o desejo por uma vida ocupada por bichos, plantas e livros; a esperança de envelhecer de mãos dadas com o meu companheiro; a busca por realinhar o sentido da minha relação com a minha mãe que pede distância para ser bonita.
Volto outro dia para um café forte e coado na hora. Como estar comigo me deixou ainda mais saudosa, desta vez, pretendo não demorar tanto assim.
Suspiros!
Igreja de Pipa - RN



Amo seus textos e suas reflexões <3
Que texto lindo!